Cem livros por ano - por Clotilde Tavares

publicada na Tribuna do Norte, em 10/01/2007

 

Um dia desses, num encontro literário, fui apresentada a um cara que lia mais de cem livros por ano. Era essa a marca dele, e a partir desta marca, como se fosse um recorde, as pessoas o apresentavam: “Esse aqui é Fulano. Ele lê mais de cem livros por ano.” O jornalista e poeta paraibano Astier Basílio também leu em 2006 cem livros; Braulio Tavares, o escritor, meu irmão, também deve ler a mesma quantidade. Desconfio de que, quando era mais jovem, eu conseguia ler muito mais de cem livros por ano, principalmente porque leio com rapidez e leio três ou quatro livros ao mesmo tempo. Hoje meu processo de leitura é diferente. Hoje minha leitura é mais uma viagem lenta e prazerosa em torno do texto, indo, voltando, anotando, consultando outras fontes, voltando ao texto, buscando informações na Internet...

Para o meu caro leitor ter uma idéia, estou lendo atualmente o romance “A Floresta”, de Edward Rutherfurd (Record, 2002), que tem como tema a história de New Forest, o bosque onde os reis da Inglaterra caçam gamos e veados desde o século XI. Através da vida de personagens, uns reais e históricos, outros fictícios, o autor vai contando a história da floresta e as sucessivas transformações pelas quais o local passou ao longo dos séculos.

Denominada New Forest (Floresta Nova) a região fica no sudeste da Inglaterra, bem em frente ao canal do Solent, num triângulo delimitado pela costa e pelos rios Avon e Test. Tem 35 quilômetros quadrados de pântanos e bosques, e é a maior área aberta do sul do país. É uma das mais antigas florestas de carvalho da Inglaterra e serviu de local de caça para os reis normandos. Guilherme II, o Ruivo, foi morto aí, num acidente de caça no ano 1100. Hoje é um parque nacional, visitado por cerca de sete milhões de pessoas a cada ano, que vão observar os cervos e os pôneis da floresta, que só existem nesse local. Rutheford, autor do livro, é autor também de “Londres, o Romance” (Record, 2000), no qual através de mil e cem páginas usa do mesmo artifício de misturar história com ficção para contar a história da capital inglesa.

Então, apaixonada que sou por história, principalmente por história medieval, principalmente na Inglaterra e França, levo horas a me deliciar com um livro desses. Leio um trecho, e quando o autor informa que o irmão do rei Guilherme, Roberto, senhor da Normandia, empenhou seu país à Inglaterra para levantar dinheiro para uma cruzada eu paro a leitura e mergulho nos meus livros de história e leio tudo sobre as Cruzadas. Quando um personagem se abriga na abadia de Beaulieu, construída pelo rei João em 1204, largo tudo e vou à Internet ver as fotos; daí, fico curiosa sobre as normas que regiam as abadias medievais, e suas diferenças. Descubro que havia vários tipos de monges: cistercienses, beneditinos, e outros. E sigo esse novo caminho que se abre à minha frente. Dessa forma é que o Romance “A Floresta”, com suas 726 páginas, rende bem um mês de leitura e viagem através de uma multidão de assuntos e temas.

Posso não ler cem livros por ano, nem estou interessada nisso. A viagem de apenas um deles, cheia de histórias paralelas, dados, visões, fotos, mapas, geografia e história enche meus dias – e noites – de prazer. E não é para isso que servem os livros?

   

 

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As fotos foram colhidas na Internet.

 

Links interessantes:

http://www.newforestimages.com/

http://www.beaulieu.co.uk/

 

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