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por Clotilde Tavares publicada na Tribuna do Norte (Natal/RN), em 31/01/2007 (se não conseguir visualizar as imagens, é só clicar no título!) Uma das coisas mais difíceis é companhia para caminhar. As pessoas estão dispostas a me acompanhar em quase tudo, mas quando telefono e faço o convite para caminhar no calçadão... aí sempre tem um problema. A recíproca também é verdadeira. As pessoas ligam e me convidam muito para comer uma torta, tomar uma cerveja, tomar uns uísques, dar uma volta no shopping, ver um filme, ir com elas ver uma casa ou apartamento para comprar ou alugar, dar opinião numa compra que querem fazer, mas caminhar, que é saudável, bom e proveitoso, não: isso ninguém quer, ninguém convida, não recebo um só mísero telefonema me convidando para tal atividade. Como não gosto de caminhar sozinha, sofro pra caramba porque preciso caminhar, é importante caminhar, devo caminhar senão do jeito que as coisas vão não caminharei mais daqui a algum tempo: rolarei como uma bola pelos calçadões da vida, uma vez que o meu metabolismo é traiçoeiro e sempre me leva numa direção enquanto eu faço esforços desesperados e quase inúteis para reconduzi-lo ao caminho inverso. Uma idéia que tenho tido ultimamente e que ainda não pus em prática é usar como companhia das caminhadas todas as pessoas que me pedirem orientação. O caso é que existe muita gente, sobretudo alunos em fase de conclusão de curso e que estão preparando suas monografias ou teses de mestrado que querem me “entrevistar” ou pegar meus “depoimentos” sobre teatro, folclore, literatura de cordel, cantoria de viola, poesia, literatura, holística e sabe-se mais lá o que é que esse povo acha ou pensa que eu sei, ou que eu entendo. Aí, eu aproveitaria para fazer como Aristóteles na Grécia antiga e ofereceria a orientação durante a caminhada, batizando essa atividade de “orientação peripatética”. Para quem não sabe, peripatético vem do grego e significa ensinar passeando, porque era assim que Aristóteles fazia com seus alunos. Também seria possível, na falta de alunos, contratar um “personal walking”, uma pessoa que, mediante uma remuneração, me fizesse companhia na caminhada. E se fosse um homem jovem e bonito melhor ainda pois agregaria valor ao meu nome e atrairia olhares, o que nunca é de se desprezar. Outra sugestão seria escolher uns dez amigos fiéis e fazer uma escala entre eles. Se eu ando três vezes por semana, cada um desses amigos me prestaria esse pequeno obséquio com um intervalo de pouco mais de três semanas, o que seria razoável, não acha, meu caro leitor? Mas eu pergunto: quem teria dez amigos fiéis dispostos a esse sacrifício? Eu mesma penso que não tenho. Tenho, sim, muitos amigos, mas não me atrevo a colocar a fidelidade deles à prova até esse ponto... Finalmente, caminhar é preciso. Mesmo
sem companhia, é colocar o tênis, uma roupinha confortável, e
procurar um lugar agradável. Uns são adeptos de caminhar sempre no
mesmo trecho e horário, porque, com a repetição, termina-se
fazendo amigos ou arranjando paqueras; outros preferem mudar todo
dia para não se entediar com o panorama. E assim, como no velho
samba-canção, “vou indo, caminhando, sem saber onde chegar...
Que sabe na volta te encontre no mesmo lugar?”
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As fotos, umas são minhas, outras foram pirateadas/googleadas por aí.
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![]() A caminhada da menina e seu cachorro... ![]() Os circunspectos Irmãos Wright caminham, pensando em voar, sem imaginar que um brasileiro lhes passaria a perna... Fazendo calor, vale tudo, até tirar a roupa. ![]() Árvores, lugar para descanso, pista adequada, segurança, sem bicicletas nem cachorros, um belo panorama... só no calçadão do Cabo Branco, em João Pessoa. (Foto: Clotilde Tavares) ![]() O caminho do solitário, na solidão o ceu e das aguas... ![]() E o passeio da menina e seu cachorro se repete nesse quadro de Irene Medeiros, paraibana. O quadro é de 1984, e desde esse ano que está comigo. (Foto: Clotilde Tavares) |