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CARO LEITOR, Fui ao Cariri neste sábado dia 22 de setembro para mais uma reunião do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri, presidido por Daniel Duarte Pereira. Já falei aqui sobre essa Instituição, que vem agitando o meio cultural do Cariri, essa região tão viva de cultura e tradição, onde estão plantadas algumas das minhas raízes familiares das quais muito me orgulho. O evento desta vez se realizou na cidade de Soledade, a 50 km de Campina Grande. Reunião é um modo de dizer, porque esses encontros do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri são verdadeiras festas, mas festas culturais, abertas ao público, com palestras, discursos, inaugurações, mostras de artesanato, música folclórica e regional e o que é melhor do que o resto todo: a alta dosagem de auto-estima que passa a circular nas veias do município depois de uma reunião dessas. POMPA E CIRCUNSTÂNCIA
Essas reuniões do IHGC não são diferentes de qualquer outra nesse estilo. Forma-se "a mesa" com intelectuais, estudiosos e autoridades. O microfone é um atrativo irresistível, e todo mundo que se aproxima da mesa para receber um título ou fazer qualquer comunicação, terminam se apropriando do tentador objeto de forma quase definitiva. Isso alonga a reunião além do admissível, mas ninguém se importa, e todos se divertem. Esses eventos também parecem ser eventos essencialmente masculinos. Mulheres na mesa, na reunião que fui no mês passado, somente uma; e nessa de domingo nem umazinha. Fica o reparo ao companheiro Daniel Sabiá, para privilegiar mais a presença feminina. Ora, se até no cangaço, que foi uma coisa guerreira e perigosa, tinha mulher, elas precisam também ocupar o espaço que lhe é devido nessas organizações. E se alguém estiver pensando que o que eu estou querendo é ir tomar assento na mesa na próxima reunião, quero dizer que não tenho a menor intenção de fazer isso. Não suporto ficar sentada muito tempo, "fazendo pose", e se ficar sentada como irei fazer a "reportagem", conversar com as pessoas, tirar as fotos? SOLEDADE Soledade é uma cidade muito agradável, com seu casario antigo, sua Igreja, sua rua central bordejada de construções com frontões ornamentados. Por aquelas paragens andaram os Oliveira Ledo na sua faina desbravadora do interior.
BENEDITO DO ROJÃO Parecendo um blueseiro do sul do Mississipi, vi passar aquele homem alto, com um terno sobre uma cintilante camisa azul, minúsculo chapéu equilibrado na cabeça, pulseiras e anéis. Saí no seu encalço, e lá o encontrei, sentado, junto a seus companheiros. Era o cantor Benedito do Rojão, artista da região, e na foto está com os músicos que o acompanham. A energia que mostra no palco desmente a idade que deve ter. Foi uma diversão escutá-lo, acompanhado apenas de zabumba, sanfona e triângulo, sem nenhuma sofisticação, só a simplicidade do autêntico som do povo.
MILAGRE E MINÚCIA Mais na frente, outro deslumbramento: o escultor Givanildo, mãos de milagre a trabalhar a madeira, com delicadeza e astúcia. Dele trouxe comigo uma peça, um égua e seu potrinho, primor de detalhe e minúcia. Ao lado, o palito de fósforo dá uma idéia da dimensão do trabalho.
Registro também os licores de leite de cabra dos artesãos Aderaldo e Idalva, à frente da Cooperativa de Artesãos, licores dignos do banquete de um rei.
Esse daí é o "licor de leite de cabra sabor chocolate". A PRINCESA E O CANGACEIRO Ô povo bonito, meu Deus, é esse meu povo paraibano! Havia muitos grupos folclóricos esperando para se apresentar; crianças iniciantes na música, poesia popular... Antes de subir ao palco, princesas misturavam-se com cangaceiros, e ciganas conversavam com vaqueiros.
Os vaqueiros mostraram que perpetuam a tradição e o pequenino encourado, sorridente, foi a graça da festa. CASARÃO BICENTENÁRIO Entre conversas e trocas de informações, assistimos à inauguração do Museu da cidade, e depois rumamos para a vizinha cidade de Olivedos, a 14 km de Soledade. Lá ainda sobrevive, um pouco deteriorada mas guardando todos os traços da arquitetura original, uma casa antiga, de idade secular, cuja construção a tradição atribui a Teodósio de Oliveira Ledo. É uma afirmação que necessita comprovação mas, mesmo que a edificação não esteja associada ao desbravador da Paraíba, merece imediato tombamento e restauração pela beleza e valor arquitetônico do prédio, com sua cornija, suas quatro águas e sua majestade a se erguer sobre o alicerce de pedras, desafiando os anos.
DEPOIS, O CEMITÉRIO Para completar, fomos ao cemitério de Olivedos que é um dos mais antigos da região; e quem mexe com história sabe que nos cemitérios estão os nomes e as datas dos antigos, de forma muito mais acessível do que nos cartórios. Passamos um agradável momento perturbando a paz dos que ali repousavam, lendo lápides, observando a arquitetura dos túmulos e fazendo fotografias, enquanto a Lua nascia. Para historiador e genealogista, cemitério é parquinho de diversões.
E FINALMENTE... Essas idas ao interior, à abençoada região do Cariri paraibano, têm constituído os momentos mais agradáveis da minha vida ultimamente. De lá volto feliz, alimentada pela rica seiva cultural que nutriu meus antepassados, me reconhecendo cada vez mais na face e na fala do meu povo, do meu povo caririzeiro, do meu povo paraibano. PORTA-RETRATOS
Antonio Marinho, 74 anos, vaqueiro filho de vaqueiro, uma das mais belas figuras humanas que já vi, envergando com orgulho o seu gibão, cheio de verve, espirituoso, bem-humorado, inteligente, vivo e esperto como só um caririzeiro sabe ser. LINK PARA OS BOLETINS E CRÔNICAS ANTERIORES E POR HOJE... ... é só! A QUEM INTERESSAR POSSA O Umas & Outras é um informativo mais ou menos semanal enviado para cerca de 800 assinantes, principalmente do Rio Grande do Norte e Paraíba, mas que atinge também pessoas em outras cidades e outros países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha e Portugal. Surgiu em novembro de 1999 e de lá para cá teve algumas interrupções, motivadas sempre por aperto na agenda da professora Clotilde Tavares, escriba deste saltitante boletim. Por isso a sua periodicidade sofre eventuais atropelos, que consideramos inerentes a um periódico independente, gratuito e anárquico como este. Se não quiser receber mais o Boletim escreva, que lhe tiro da lista e a amizade continua a mesma. Clotilde Tavares João Pessoa - PB clonews@digi.com.br |
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