UMAS & OUTRAS / Parahyba - PB
Escrito e enviado por Clotilde Tavares
12 de agosto
de 2007 - Domingo

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AQUI se não estiver vendo as imagens.

Vamos mudar aquela bandeira de sangue
e luto, e chamar nossa bela capital
por outro nome!

Eu sou Parahyba, e você?

CARO LEITOR,

Estava vendo TV local, que quase nunca vejo e escutei (porque TV local eu escuto, enquanto faço outra coisa) o anúncio de um programa de doações em dinheiro para uma dessas causas em que a Rede Globo se envolve dia sim dia não.

As instruções diziam: "... para garantir a doação é preciso ouvir a mensagem até o fim."

E eu fico aqui fazendo minhas contas de que uma ligação destas custa tanto, que quem paga é quem faz a ligação, eu, ou você, otários que pagam para doar dinheiro, seduzidos pelo desejo de fazer caridade, estimulados a isso pela pieguice da programação. A gente paga "xis" de ligação, desse "xis" vai algo para a Globo e algo para a companhia telefônica. E para garantir esse "xis" é que eu preciso ouvir a mensagem até o fim... Quanto maior a mensagem, mais eu gasto e mais aumenta esse "xis".

Como não tenho nenhum complexo de culpa social em relação ao meu semelhante, e pago rigorosamente todos os meus impostos em dia, além daqueles que já vêm implícitos em tudo que consumo, estou fora desse esbulho.

Sem culpa, sem pecado, sem remorso.


O EXTRA-TERRESTRE

"Atenção senhores passageiros! Desculpem interromper a viagem de vocês, mas eu sou um extra-terrestre. Eu vim de Marte com a minha família e fui esquecido aqui neste planeta. Nesse exato momento eu poderia estar abduzindo alguém, não é mesmo? Mas eu prefiro estar aqui, pedindo meu dinheiro honestamente para voltar para o meu planeta. Qualquer coisinha já me ajuda, tá? Uma moedinha de 1 centavo, de cinco ou de dez... Valeu, brigado! Valeu, gente, brigado, viu? Pessoal, ó! Qualquer coisinha já me ajuda a voltar para o meu planeta. Pode ser um ticket, pode ser uma barrinha de plutônio, de césio... Qualquer coisa radioativa já me ajuda. Pessoal, boa viagem! Valeu, motorista!"

Este é o texto de um vídeo veiculado no canal AXN, para divulgar o seu AXN Film Festival, na TV fechada. Na filmagem, apenas o motorista e o cobrador do ônibus sabiam que era um filme. Os passageiros realmente contribuíram com o ator, que depois devolveu o dinheiro.

Veja aqui o vídeo. Eu achei genial.


A IDADE DO ROCK

Gosto de dizer que o rock tem a minha idade, embora saiba que ele é alguns anos mais novo.

No início da década de 1950, a galera já se balançava e girava ao som do rhythm & blues. Aí um disc-jockey chamado Allan Freed se auto-intitulou "Moondog" e através de um programa de rádio e da organização de bailes, deixou sua assinatura na música mundial, criando em 1954 o termo "rock and roll" para designar o novo ritmo, que veio a se tornar mais do que uma dança: virou uma atitude, que mudou a face do comportamento entre os jovens.

Eu tinha sete anos em 1954 e aos doze, em 1959, já saía da aula mais cedo e, escondida de Mamãe, ia dançar rock na casa de um pessoal, na esquina da Irineu Joffily com a praça cel. Antonio Pessoa, em Campina Grande. Lá, numa tarde de excepcional performance, e como a casa abria janelas sobre a rua, fui vista por Titia, que vinha do trabalho. Ao chegar em casa, ela informou a Mamãe o tenebroso fato: "Ela estava escanchada na cintura de um rapaz!"

Ao chegar em casa, Mamãe me fez shake, rattle and roll ao aplicar nas minhas costas e onde batesse umas lamboradas com a "virola", um artefato de psicologia maternal inventado por ela e que consistia numa corda de sisal trançada com uma velha tomada de ferro elétrico.

Talvez tenha sido por isso que o rock and roll se incrustou na minha pele e nunca mais saiu, numa espécie de tatoo comportamental de tal forma indelével que até hoje, aos quase sessenta anos, me faz continuar fã e praticante, do ritmo e da atitude.


SEGUINDO A TRADIÇÃO

Meus filhos não precisaram apanhar para aprender a gostar de rock. Ambos roqueiros, fazem do ritmo e atitude o pão de cada dia, coisa mais patente em relação a Ana Morena que, junto com o marido Anderson Foca são empresários de rock and roll em Natal, vivem disso, e não trabalham em outra coisa.

Esses danados acabaram de realizar o Festival do Sol, correndo pelo acostamento dos eventos ligados às grandes gravadoras, na promoção do rock independente, as chamadas "bandas indies", que ficam à margem do circuito mais comercial do mercado.

Foram três dias de festival, 26 horas e 30 minutos de música, 47 bandas do Brasil inteiro com um público total de 4.500 pessoas. Tudo aconteceu na Ribeira, centro histórico de Natal-RN, onde a dupla Ana/Anderson tem o Dosol Rock Bar.

E fizeram tudo sem patrocínio, porque as empresas e as leis de incentivo da minha cidade Natal neste ano pagaram mico e deixaram que um espaço publicitário fantástico desse, com platéia jovem, antenada e formadora de opinião daqui a uns anos, ficasse vazio.

Mas a dupla Ana/Anderson encarou o desafio e, mesmo arriscando ter que vender o carro ou os "amps" para pagar as contas, fez a festa. É o rock!

Anderson Foca e Ana Morena Ramos, energia viva do rock em Natal-RN. (Foto Nicolas Gomes, em pleno show do Matanza.)


A MELHOR BANDA

Não pergunte por que, porque não sei dizer. Mas a banda de rock que eu gosto mais neste país é o Matanza. Os rapazes cantam um rock violento, "pra beber e brigar", que "é bom quando faz mal", um rock cheio de testosterona, com letras absurdamente politicamente incorretas - como aliás são muitas das letras de rock, mas como são em inglês, e com muita gíria, a maioria de nós não percebe muito o significado.

Mostrei algumas músicas a um povo que conheço, mas não gostaram.  Disseram que é barra pesada, de mau-gosto, violento... Mas pra mim rock é isso: é tudo aquilo que nossos pais não gostam. E essa pulsão adolescente que nunca consegui resolver dentro de mim, essa rebeldia, essa coisa do contra, é que mantém nesta velha roqueira a atitude de um boy de 14 anos: é o rock!

Eles estiveram no Festival do Sol, enquanto eu estava perdida nas quebradas do Cariri Paraibano e soube que fizeram uma performance de avoar fora a tampa da lata. Nutro uma paixão adolescente pelo Jimmy, esse viking aí da frente. (Foto Daryan Dorneles)


FALAR EM BANDA...

Ah! Também gosto do Angra. Mas não tanto quanto gosto de Matanza.

Angra, show em Natal, novembro de 2004. (Foto minha)


DEFINIÇÃO

Poeta é aquele que tira de onde não tem e coloca onde não cabe.

Pinto do Monteiro


CORRUPÇÃO

É muito fácil fazer movimento com títulozinho bem bolado tipo "Cansei!", mas todo combate à corrupção deve começar de casa. Só quando for resolvido o problema dentro das quatro paredes do lar, é que se tem estatura moral para sair caçando os corruptos de Brasília.

Porque corruptos são também o cara que dá dez paus para o guarda dispensar a multa, o aluno que assina por outro a lista de presença na universidade, o jovem que entra no cinema com a carteira de estudante do outro, o pai que promete um carro ao filho se ele passar no vestibular e a mãe que engana o caçula com promessa de um brinquedo novo se ele tomar a sopa.

Corruptos, todos, sim senhor. Corruptos e corruptores. Começa assim.


A IGREJA DA MISERICÓRDIA

Nesta semana, finalmente, foi reaberta aqui na capital da Parahyba, depois de uma cuidadosa e demorada restauração, a Igreja da Misericórdia. Iniciada a sua construção no início da colonização, foi obra de Duarte da Silveira, e representa um dos mais autênticos exemplares da arquitetura colonial brasileira.

Durante a restauração, foram encontradas várias relíquias, entre elas: o túmulo do capitão-mor da então Província da Paraíba, João Coelho Viana.

Em que pese o esplendor barroco do conjunto arquitetônico do São Francisco, a Misericórdia é o tipo da construção sólida, simples, funcional, meio tosca nos seus ornamentos, muito mais singelos do que o barroco elaborado mas que me toca muito mais à alma e à emoção. Eu amo essa igreja. Quando olho para ela a impressão que tenho é que ela está ali desde o começo do mundo e, quando um dia o mundo se acabar, ali ela vai continuar...

Na próxima semana, passarei lá de câmera em punho para conferir o que foi feito, pois fotografei, há um ano e meio, a igreja em plena restauração. Estou louca para ver o teto. Tenho lindas fotos da reforma, a igreja ainda toda cheia de andaimes...

Quero deixar aqui os parabéns a todos que contribuíram para nos devolver esse maravilhoso templo.

Igreja da Misericórdia, sólida como um rocha plantada no começo do mundo.


"OS MENINOS DE PIEDADE"

Mais do que todos, os verdadeiros artífices dessa restauração são os meninos e meninas restauradores, chefiados pela arquiteta Piedade, que com minúcia e paciência, nos devolveram a beleza das pinturas, a riqueza dos ornamentos.

Nesta foto eles trabalhavam uma das lâminas de madeira do teto, com cotonetes, removendo delicadamente a camada de tinta branca que cobria a deslumbrante pintura que havia embaixo.

São eles os verdadeiros heróis desta restauração.

 

Piedade e sua equipe de meninos restauradores.


PONTO DE VISTA

Estava em casa quando houve movimentação na piscina do prédio. Adolescentes aproveitavam a manhã de sol, munidos da indefectível máquina de fazer zoada.

E tocava uma música assim:

"... Você até que é gostosinha, mas é abestalhada..."

Aí comentei com Pedro-Quirino-Meu-Irmão no MSN sobre a letra da canção. Ele disse:

- Só é bom assim. Pra conversar a gente tem os amigos...



AS MULHERES E A MAGISTRATURA

Você tem idéia de como é reduzida a representação da mulher nos órgãos superiores da Justiça? Eu não tinha. Veja os números:

No STF, são 2 mulheres entre 11 ministros;
No STJ, 5 mulheres entre 33 ministros;
No TST, 2 mulheres entre 21 ministros;
No TSE e STM, nenhuma mulher;
No TRF-5a. região, são 15 desembargadores, e uma mulher;
No TJ/SP, entre 353 Desembargadores, 12 são mulheres;
NoTJ/RJ, entre 155 Desembargadores, 15 são mulheres;
No TJ/BA, entre 31 Desembargadores, 15 dão mulheres;
No Tribunal de Justiça da Paraíba, existe apenas uma mulher para 19 Desembargadores.

Quem me falou sobre isso foi a Dra. Celeide Queiroz e Farias, ela própria uma batalhadora pelo aumento de espaço para as mulheres nessas instâncias tão importantes do sistema jurídico em nosso país.

Afinal, se somos metade da Humanidade, é justo que tenhamos também 50% da representatividade. Em tudo.


SEXTILHA

As penas do passarinho,
fazem vezes de colchão.
Protegem o animalzinho,
se ele cai de encontro ao chão..
Minhas penas, são por dentro;
magoam o meu coração...

Bob Motta


PORTA-RETRATOS

NILO TAVARES (1913-1999), meu pai, no lugar onde ele mais gostava de estar: na tribuna. Jornalista, poeta, inteligência superior, autodidata e, de quebra, o melhor pai do mundo.


ESTOU...

... COMENDO o chocolate com 70% de cacau da Copenhagen.
... BEBENDO
iogurte desnatado lebom sabor ameixa.
... LENDO
Sobrados e Mocambos, de Gilberto Freyre, ainda completamente deliciada.
... TROCANDO
novamente as estantes de lugar.
... QUERENDO
expandir o Umas & Outras. Você vai saber como... depois.

... VIAJANDO
de novo, viagens curtas, nunca sei onde vou estar.
... TENTANDO
acordar na madrugada para ver Vênus, que agora está no nascente.

... ESCREVENDO
e não lendo, pra ver se o pau come!
... GASTANDO
meus olhinhos nos microfilmes dos mórmons.
... DANDO
meu jeito!


LINK PARA OS BOLETINS E CRÔNICAS ANTERIORES

www.umaseoutras.com.br


E POR HOJE...
... é só!


A QUEM INTERESSAR POSSA

 O Umas & Outras é um informativo mais ou menos semanal enviado para cerca de 800 assinantes, principalmente do Rio Grande do Norte e Paraíba, mas que atinge também pessoas em outras cidades e outros países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha e Portugal.

Surgiu em novembro de 1999 e de lá para cá teve algumas interrupções, motivadas sempre por aperto na agenda da professora Clotilde Tavares, escriba deste saltitante boletim. Por isso a sua periodicidade sofre eventuais atropelos, que consideramos inerentes a um periódico independente, gratuito e anárquico como este.

Se não quiser receber mais o Boletim escreva, que lhe tiro da lista e a amizade continua a mesma. 


Clotilde Tavares
João Pessoa - PB 
clonews@digi.com.br