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CARO LEITOR, "A civilização é uma grande inimiga do passado. Apaga-lhe os rastros com a maior indiferença como se quisesse, na sua vertigem, esmagar a tradição. Desde que começamos a figurar no mapa dos civilizados, as nossas tentativas para aniquilar os costumes antigos sucedem-se a cada dia, à medida que vamos recebendo e adotando tudo que nos chega do estrangeiro, desde a dança, à literatura e até mesmo os vícios, que estes nossos atuais também são importados. Nada mais se observa do que era nosso, muito nosso, e por isso mesmo digno do nosso carinho. Vejamos, por exemplo, em pleno São João e não se vê mais um só dos festejos de outrora." É assim que começa o editorial da Revista de Pernambuco no ano de 1925. Se naquele tempo o articulista já se indignava com o que acontecia, eu queria só ver o que ele diria hoje, quando o perigo não vem do estrangeiro, mas daqui de dentro mesmo, com os pseudo-forrós de gosto duvidoso, que glorificam a bebedeira, a violência e a falta de respeito.
BARCO PERDIDO BEM CARREGADO É só imaginar: faz de conta que você compra um monte de coisas de valor e carrega um navio com elas, para entregar em algum lugar. No meio da viagem o barco se perde e fica vagando por aí, prato cheio para qualquer sabido que o encontrar primeiro e se apossar dele. Essa imagem “barco perdido, bem carregado” eu conheço desde criança e sempre a vi ser aplicada àquelas pessoas que estão por aí, inocentemente, dando sopa, cheias de amor pra dar, soltas na gandaia e sem ter noção do perigo que correm. Há uma música de Elino Julião que começa assim: “Barco perdido, bem carregado/ Eu tinha chegado em Natal/ Muito mal eu sabia onde era as Rocas/ Caí na fofoca legal”, diz a primeira quadra, traçando o retrato da situação. E continua: “Do Areal eu fui à Pista/ Limpei a vista na Tetéia/ Saí tomando uns capilé/ E quando dei fé, tava na Coréia...” Reconstituindo o roteiro do personagem, vemos que ele não conhecia a cidade pois “muito mal sabia onde era as Rocas”. Junta-se a uma turma, das Rocas passa ao Areal e do Areal à Pista, que era como chamavam na década de 1950 à Avenida Hermes da Fonseca, a primeira avenida asfaltada da cidade, tendo sido o asfalto feito pelos americanos na época da Guerra. Aí o compositor diz que, depois de chegar à Pista, “limpou a vista na Tetéia”. Mas que Tetéia era essa? Perguntei a um, perguntei a outro, entrevistei notáveis e conceituados biriteiros mas ninguém me dava notícia do que seria a Tetéia. Aí telefonei para o próprio Elino Julião, que me solucionou o mistério. Segundo ele, na curva da Pista, quando a Hermes da Fonseca dobra ali na Praça das Flores, pertinho de onde hoje é o Mercado de Petrópolis, havia uma barraquinha, uma birosca, onde a rapaziada encostava pra tomar uma cachacinha com parede de tripa ou ribaçã assada, sirigüela ou picado. A proprietária, idosa, mal humorada, reclamando de tudo, cachimbo no canto da boca, um pano amarrado na cabeça, atendia pelo doce nome de Tetéia. E “limpar a vista” era tão somente tomar uma “chamada”, para aclarar as idéias. Com efeito, o personagem da música sai dali “tomando uns capilés” e quando dá acordo de si está na “Coréia” onde, como repete no estribilho, “só tem véia, só tem véia, no forró da Coréia...” Elino Julião é ainda quem informa que o tal forró ficava nas imediações da lagoa que existia onde hoje é o Centro Administrativo. Forró pobre, decadente, sem paredes, latada precária, fora de mão, longe de tudo, freqüentado apenas por aquelas mulheres que, desgastadas pelo exercício profissional, banidas dos bordéis de luxo, somente ali encontravam guarida. A segunda estrofe da música fecha a história e é um apelo do personagem, ainda atordoado pela terrífica visão das velhas bacantes: “De outra vez quando eu for ao Rio Grande/ Por favor não me deixe eu andar só/ Eu prefiro ficar em Igapó/ Daquele forró, tenho receio/ A Praia do Meio é bom pra mim/ No Alecrim a gente se faz/ Eu fico lá trocando idéia/ Na Coréia eu não vou mais...” SAUDADES DE ELINO Elino Julião faleceu em maio do ano passado. Era uma referência importantíssima para o forró, tendo sido parceiro de Jackson do Pandeiro. Escrevi a apresentação de um dos seus discos, onde lembro que a pessoa pode até nem saber quem é Elino Julião, mas sabe que foi Nascimento que cortou o rabo do jumento; já ouviu falar no baile do Tancredo e no forró da Coréia. Suas músicas se entranharam de tal forma na nossa cultura que já fazem parte do imaginário do povo nordestino. Suas músicas - e as de artistas como ele - continuam sendo o único antídoto que podemos usar contra o veneno do forró pasteurizado que empesteia a nossa música.
Esse era Elino Julião. Risada gostosa, encanto de pessoa, artista completo, força sempre viva da nossa cultura.
Visite o site: www.elinojuliao.com.br MUITA GOZAÇÃO Você obviamente conhece a Wikipedia, a enciclopédia de todos, construída com as contribuições de todos os internautas. Mas o bom mesmo é a Desciclopédia - uma versão da Wikipedia que é pura gozação. Guardando a mesma formatação da Wikipedia, é esculhambação pura, num humor que lembra Casseta & Planeta. Eu adoro. E de presente para os leitores do valoroso estado vizinho, envio o mapa de Pernambuco tal qual se encontra na Desciclopédia, no verbete Pernambuco.
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UM PREDADOR FEROZ O crocodilo australiano de água salgada é uma das mais temíveis feras do planeta. Fica parado por horas, parecendo um tronco de árvore, esperando a presa passar, para abocanhá-la, puxá-la para o fundo da água, afogá-la e desmembrá-la!
Mais voraz do que ele, só aquele pessoal de Brasília quando se trata de grana. Dos outros. BOA IDÉIA O prédio detonado da Ribeira, em Natal, se transforma no atelier do maravilhoso Flávio Freitas. Eu gostei!
A BOCA DA NOITE Um dia desses precisei marcar um encontro com um amigo e quando surgiu a pergunta "A que horas?" respondi: "À boquinha da noite." Ele riu, e perguntou se a noite ia comer alguém, uma vez que tinha boca. Mas não é isso, minha gente. Isso é coisa da nossa cultura, da nossa história, da nossa formação. Hoje, depois da invenção do relógio digital, toda pessoa que tiver dez reais compra um desses em qualquer esquina, mas quando eu era criança relógio era luxo e o horário mesmo do dia-a-dia era determinado pela posição do sol durante o dia e pelo cantar do galo na madrugada. "À boquinha da noite" é assim que escurece de todo, seis e meia, sete da noite, uma vez que a "boca da noite", sem diminutivo, é a noite já firmada, já estabelecida, oito horas da noite. Era a hora das visitas. "Que horas eu passo lá, Comadre?" "Passa na boca da noite", a outra respondia. Isso numa época em que, não existindo ainda a televisão com suas novelas, a gente sempre recebia gente em casa para conversar. Mamãe sempre se levantava no "quebrar da barra", que era às cinco horas da manhã. E meio-dia nunca era meio-dia simplesmente: era "pingo-do-meio-dia". Uma hora da madrugada o galo cantava a primeira vez, e em "Macbeth", de W. Shakespeare, o porteiro do castelo informa: "Estivemos bebendo até o primeiro cantar do galo." Outra hora cheia de mistérios era no "pender-do-sol", ou seja, depois do almoço, passado o "pingo-do-meio-dia", quando o Sol começa a "cair", uma hora da tarde. No pender-do-Sol o mundo fica parado, sem movimento, nada se move. Mamãe dizia: "Parem com esse barulho, que agora até o mundo está parado". A louça lavada, Papai já havia saído para o trabalho e ela queria cochilar um pouco: então saía-se com essa, de dizer que o mundo havia parado, para que a gente parasse também de fazer barulho. Até hoje, quando leio o magnífico poema de Carlos Drummond de Andrade "A Máquina do Mundo" é como se estivesse nessa hora, no pender-do-sol, no mundo parado, imóvel, sem nenhuma agitação. E para concluir todas essas recordações de horas e de relógios, na década de 1960 Papai comprou para Mamãe um relógio como presente do Dia dos Namorados. Era um relógio para colocar na sala, e tocava um carrilhão a cada hora e a cada meia-hora. Em estilo "funcional", todo colorido, ficava na sala-de-jantar e passávamos a noite inteira ouvindo suas batidas. Papai, poeta, entregou o relógio a Mamãe com esta quadrinha: "Estes ponteiros, querida Lindo, não? (Coluna semanal que assino n'A União (João Pessoa-PB), toda quarta-feira. Essa foi a de 04-07-2007).
Natal, o rio, e o barco-escola no qual Marcos Sá me prometeu um passeio. A foto é de Alex Fernandes. PERGUNTAR NÃO OFENDE Por isso é que eu queria saber o motivo de eu ter sido convidada - ou melhor, enfaticamente convidada - na qualidade de proponente de um projeto ao FIC, a me fazer presente num tal ato de apoio à transposição do São Francisco. Sinceramente, não entendi o que é que eu tenho a ver com isso. Será que o fato de eu ter um projeto cultural aprovado pelo FIC me obriga, ou me compromete a estar presente nesses eventos? A propósito: não vou. Não vou a NADA promovido ou organizado por esses camaradas que estão no poder. Gosto muito de escolher minhas companhias. ÉPICA OU HÍPICA Na programação II Festival de Literatura de Garanhuns, que termina hoje, tem uma cavalgada. Deve ser com a participação dos escritores de poesia épica. Ou hípica... LINKS INTELIGENTES Ricardo da Costa, professor de História da UFES, explica porque a História não serve para nada! http://www.ricardocosta.com/pub/para_que_serve.htm Veja o site da Companhia de Freud, uma editora sem nenhum complexo. Mapas antigos da cidade do Rio de Janeiro. http://www.brazilbrazil.com/riomaps.html PORTA-RETRATOS
Evandro da Costa Fernandes (Vandinho), que aniversaria por esses dias. Os parabéns da equipe do Umas & Outras, ESTOU... ...
OUVINDO conselhos de quem sabe
mais do que eu.
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E POR HOJE... A QUEM INTERESSAR POSSA O Umas & Outras é um informativo mais ou menos semanal enviado para cerca de 800 assinantes, principalmente do Rio Grande do Norte e Paraíba, mas que atinge também pessoas em outras cidades e outros países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha e Portugal. Surgiu em novembro de 1999 e de lá para cá teve algumas interrupções, motivadas sempre por aperto na agenda da professora Clotilde Tavares, escriba deste saltitante boletim. Por isso a sua periodicidade sofre eventuais atropelos, que consideramos inerentes a um periódico independente, gratuito e anárquico como este. Se não
quiser receber mais o Boletim escreva, que lhe tiro da lista e a amizade
continua a mesma.
Clotilde Tavares
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