UMAS & OUTRAS / PB-RN-PE
Escrito e enviado por
Clotilde Tavares
2 de setembro de 2007 - Domingo

Clique AQUI se não estiver vendo as imagens.

O número de hoje é dedicado a Braulio Tavares, intelectual completíssimo e irmão queridíssimo, que neste dia 2 de setembro aniversaria.


CARO LEITOR,

Lá estou eu de novo com meu velho tema: o barulho. Sempre o barulho, meu caro leitor. O barulho incomodativo, irritante, lesivo ao delicado mecanismo do ouvido interno. Provocador de nervosismo, de irritação, de vontade de assassinar alguém para ter de volta o bem-amado sossego, a possibilidade de falar ao telefone sem ser aos berros e de ouvir o programa preferido de televisão. O mundo vive mergulhado no barulho e a maioria de nós já nem sente, provavelmente porque se acostumou à zoada constante.

Vivi muito tempo em Natal, cidade que padecia dessa mesma praga barulhenta que hoje vejo assolar a capital da Paraíba. Lá, a situação melhorou muito depois de uma minuciosa campanha de esclarecimento público, com educação da população, juntamente com a ação sempre presente do Ministério Público, que acolhia as queixas e ia lá providenciar a punição dos faltosos. Bares famosos e tradicionais da cidade foram fechados porque tornavam a vida da vizinhança insuportável; e depois que começaram a aparecer nos jornais notícias de punições e multas, as pessoas automaticamente trataram de adequar seus espaços e práticas ao novo estado de coisas.

Mas aqui na Paraíba as ações ainda são muito incipientes, frágeis, tímidas. Na cidade, há ainda muito forte a cultura do “cafuçu”, com seu carro equipado com alto-falantes poderosos, a se exibir pelas ruas, atestando sua pobreza mental, sua falta de educação, sua triste condição de pessoa carente de atenção. Ainda há a cultura da festa que, para ser animada, precisa ser barulhenta e incomodar toda a vizinhança.

Ninguém está a salvo. Pessoas alugam ou compram um apartamento para na primeira semana descobrir que o vizinho, que mora lá embaixo na casa ao lado do prédio, junta uma récua de amigos na sexta-feira para farrearem, e a farra se estende ao domingo, com os “carros-de-som” parados na rua e infernizando a vida da vizinhança. Um casal de amigos vive essa situação; o órgão que controla a zoada na capital já foi lá várias vezes, mas o fato se repete porque é um problema de educação, meu caro leitor. O barulhento acha que não está fazendo nada demais e muitas vezes só compreende o problema quando alguém de sua família adoece gravemente e precisa ser tratado em casa e ele, o barulhento, por sua vez, passa a ser incomodado por outro.

Enquanto escrevo, ouço o cãozinho do vizinho a latir, enchendo o prédio com a sua angústia canina. Pela convenção do condomínio, permitem-se cachorros pequenos nos apartamentos. Pequenos, mas de um latido enorme.

E eu digo, como diria o cachorrinho: é osso!


A LIMPEZA PÚBLICA

É muito eficiente, pelo menos no meu bairro. Mas precisava ser às duas da manhã? Sempre me acordo nessa hora, com o moído que o caminhão do lixo faz na minha esquina, parado, moendo, enquanto os garis atiram o lixo dentro da máquina.

Um barulho da molesta, com direito a piadas, conversas e gargalhadas, que se somam ao barulho da máquina. Tudo amplificado pelo silêncio da madrugada.


SILÊNCIO...

"Silencio, que están durmiendo,
Los nardos y las azucena ...
No quiero que sepan mis penas
Porque si me ven llorando morirán."

Ibrahim Ferrer

(E se você tem o DVD "Buena Vista Social Club" aproveite para ouvir/ver ao vivo esta maravilha.)


O LADO BOM DO BARULHO

Existe, meu caro leitor. Existe um barulho do bem. É aquele que não incomoda a ninguém, e ao qual você se submete por livre e espontânea vontade.

Foi o que eu fiz nesta quinta-feira dia 30 quando fui ao cine Bangüê ver as feras acima, num espetáculo de blues, rock e virtuosismo como nunca mais eu tinha visto.

Vasco Faé demonstrou mais uma vez o músico e artista completo que é, um homem de muitos instrumentos, carismático, dono do palco, fazendo o publico delirar. Já o maravilhoso Andreas Kisser, fora do seu ambiente heavy-metal, teve uma performance insossa, apenas cumprindo o seu papel no show, que penso ter sido tão somente atrair público, já que seu nome é mais conhecido entre a galera do que o nome de Vasco Faé.

Depois de duas horas de show, de delírio puro, fiquei completamente surda e feliz. Só voltei a ouvir direito no sábado!


AINDA O SHOW

O show Faé/Kisser faz parte do Oi Blues By Night, que promete uma grande sessão de blues toda última quinta-feira do mês no Cine Bangüê, em João Pessoa.

Toinho Alcântara está de parabéns pela iniciativa, e qualquer elogio que eu, fã de blues, fizer a esta idéia, ainda é muito pouco. Mas aqui ficam algumas interrogações.

Por que os ingressos não podem ser vendidos com antecedência? Na quarta-feira, véspera do show, fui lá tentar comprar. O funcionário da bilheteria do Bangüê nada sabia sobre o espetáculo. Na hora do show, o apresentador que anunciou os artistas chamou o Andreas de "Kisses", em vez de Kisser. E finalmente, depois do show, o banheiro estava imundo, sem  papel higiênico, NO ESCURO, e tivemos que acender os celulares para poder utilizá-lo.

No próximo show estarei conferindo novamente tudo isso. E que venha o blues!


A CRÍTICA

Quando critico, não critico pessoas: critico ações, ou idéias, ou atitudes. Não tenho interesse em "trabalhar contra". Nos reparos que fiz acima, tudo é coisa simples, fácil de ser corrigida.

E lembro que, como dizia Beaumarchais, "sem liberdade de crítica não existe elogio sincero".


ELOGIO DA PREGUIÇA

Juvenal Antunes, poeta nascido em 1883 em Ceará Mirim, RN.

Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!

Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.

Ó sábios, dai à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!

Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra!

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!

Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas...

Cresce o teu filho? É belo? É forte? É louro?
- Mais uma rês votada ao matadouro!...

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,

Que arda, depressa, a colossal fogueira
E morra assada a humanidade inteira!

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

Queres riquezas, glórias e poder?...
Para que, se amanhã tens de morrer?

Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?

Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!

Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,

E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor...

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.

Que me não faças mais essa injustiça!...
Se ontem não fui te ver - foi por preguiça.

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar...

(Postado por Oswaldo "Orf" Rodrigues na lista Umas & Outras)


RALI DA DEVASTAÇÃO

Numa lista que assino, foi postado um email sobre um evento ocorrrido na Barra de Gramame, evento esse que deve ter sido um verdadeiro atentado à natureza, ao sossego, à segurança.

Reproduzo aqui alguns trechos do e-mail.

"... Sábado pela manhã, fomos surpreendidos pelos roncos dos motores das camionetas 4x4 de várias cidades do Nordeste, que invadiram a Barra de Gramame, num rali da Mitsubishi. Nunca imaginamos ver uma coisa daquela! Eram mais de 200 entre jipes e camionetas, feito loucos, passando por cima de tudo que encontravam pela frente.

" ... alguns moradores ainda tentaram falar com eles, se colocando literalmente na frente, com os braços abertos, na tentativa de que eles pelo menos diminuíssem, para dizer que aquela era uma área residencial, que a barreira é protegida por lei, que não é permitido tráfego naquela área, etc, etc, mas foi em vão. Aí é que eles aceleravam e saíam xingando feito loucos.

"... Ainda ligamos para a Polícia, que explicou que não podia fazer nada, que ligássemos  para as curadorias, (que no sábado não funcionam).

A missivista continua, indignada, e com motivo:

"... Quanta impotência diante desses babacas que acham que esporte é gastar combustível das 7h às 3 da tarde, desrespeitando os moradores e o meio ambiente daquela forma! No domingo li no jornal matéria sobre o tal rali, se vangloriando do tamanho do percurso que "abrangeu desde loteamentos, canaviais até áreas de reflorestamento de bambu". Já pensou que violência?

E termina, perguntando:

"...Será que são eventos dessa natureza que se quer para a nossa cidade?


EITA PERGUNTA DIFÍCIL!

O que é que interessa à cidade? É a pergunta suscitada acima.

Vejo todo dia  coisas que penso que não interessam à cidade, nem ao conjunto das pessoas que nela habitam. Um dia desses andei aqui falando sobre a tal Estação Ciência, que estão construindo no cocoruto da barreira do Cabo Branco. Não me interessa se os "ambientalistas" disseram que tudo bem, que pode construir ali. Meu bom senso diz que não, principalmente quando há tanto espaço vazio na cidade.

O que vejo é uma lógica perversa, que serve a muitos interesses que nem sempre são os interesses da cidade enquanto essência, enquanto local de vida e habitação dos seus moradores.

As autoridades por certo autorizaram o "rali da devastação". Ou então, as mitisubiches da vida entenderam que isso aqui é uma imensa casa-de-mãe-joana e fizeram sem licença mesmo.

Pelo que vejo, a nossa qualidade de vida está indo parar no mesmo local onde estão indo parar a reputação dos principais políticos do estado: no esgoto.


INCÊNDIO NO PLANALTO

Um terrível incêndio destruiu hoje cedo a biblioteca pessoal do Presidente Lula.

As informações confirmam a queima total de dois livros e o porta-voz do Palácio do Planalto acaba de declarar  que o presidente está inconformado, já que não havia terminado de colorir o segundo.

(Colhido na Internet)


SEM PALAVRAS


CRIME CONTRA A MEMÓRIA

No Recife, fiquei maravilhada com o Arquivo Público Estadual. Organizado, limpo, funcionários dedicados e atenciosos, acervo acessível ao público.

Na capital paraibana parece que a história é outra. Conversando com uma amiga pesquisadora ela me falou que é lastimável o estado dos documentos no Arquivo Público da Paraíba, que chegam a ser dobrados para caber em envelopes padronizados!

Muitos documentos têm anotações com esferográfica, feitas pelas pessoas que a rigor, deveriam somente transcrever o texto.

E eu planejava uma visita até lá mas fiquei com medo de ir, para não ter raiva.


FOTO HISTÓRICA

Da esquerda para direita: José Lins do Rego, Otávio Tarquínio de Souza, Paulo Prado (no centro), José Américo de Almeida e Gilberto Freyre. Foto feita em São Paulo em 1938, enviada para as listas por Marcus Aranha e que o Umas & Outras, sem licença, reproduz aqui.


O DISCÍPULO

O discípulo procura um mestre para iniciá-lo no caminho esotérico. O mestre propõe a iniciação num ritual à margem do rio. Lá, mergulha o discípulo na água, e lhe diz:

- De agora em diante não mais te chamarás Luiz: te chamarás Pietrie. Não comerás mais carne animal, não beberás mais nada que contenha álcool, não fumarás, e nem usarás nenhuma droga. Tua alimentação será vegetariana, podendo eventualmente comer peixes.

Alguns dias depois o discípulo é encontrado à margem do rio, mergulhando um porco na água, e dizendo:

- De agora em diante, não te chamarás mais porco, teu nome será peixe...


PÉROLA POÉTICA

"Certa vez, depois de restar inútil ocultar tanto desejo,
aquela mulher me disse: eu tenho idade para ser sua mãe.

Pedi que ela repetisse a mesma frase, mas sem a última palavra.
Ela o fez e eu lhe disse: exatamente.

Então aquela mulher foi minha
como uma mulher deve ser de um homem: sem tempo.
Com todo o tempo."

Antoniel Campos, de Natal/RN.


SEM PALAVRAS


O REI DA "BOUTADE"

É meu irmão Pedro Quirino. A última dele:
 
Quando fiz 37 anos alguém chegou pra mim e disse: "Que essa data se reproduza por muitos e muitos anos". Agora, todo ano faço 37.
 

LINKS LEGAIS

Sete imagens curiosíssimas da ciência:
http://groups.tecnocientista.info/nd.asp?cod=6053


A Morte do Rei do Barro:
http://www.youtube.com/watch?v=mvZ5JzPjA1M&feature=dir

O Sanfoneiro:
http://www.youtube.com/watch?v=eTCZOI-DdoA&NR=1

ESTOU...

... COMENDO pão integral com queijo de Minas.
... BEBENDO
café com muita cafeína.
... OUVINDO Billie Holiday
cantando St. Louis Blues.
... RECEBENDO
em todo este final de semana a visita da maravilhosa Ana Morena, minha filha.
... PREPARANDO uma prestação de contas para os meus 60 anos de vida.
... LENDO as "Ordenações Filipinas".  
... ORGANIZANDO
minha próxima viagem, nesses dias, ao Agreste pernambucano. 
... TERMINANDO
de pagar as prestações da TAM e da GOL da viagem do ano passado e inventando novos trajetos aéreos para os próximos meses.
... MORRENDO de preguiça... ahhhhh...


LINK PARA OS BOLETINS E CRÔNICAS ANTERIORES

www.umaseoutras.com.br


E POR HOJE...
... é só!


A QUEM INTERESSAR POSSA

O Umas & Outras é um informativo mais ou menos semanal enviado para cerca de 800 assinantes, principalmente do Rio Grande do Norte e Paraíba, mas que atinge também pessoas em outras cidades e outros países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha e Portugal.

Surgiu em novembro de 1999 e de lá para cá teve algumas interrupções, motivadas sempre por aperto na agenda da professora Clotilde Tavares, escriba deste saltitante boletim. Por isso a sua periodicidade sofre eventuais atropelos, que consideramos inerentes a um periódico independente, gratuito e anárquico como este.

Se não quiser receber mais o Boletim escreva, que lhe tiro da lista e a amizade continua a mesma. 


Clotilde Tavares
PB - RN - PE 

clonews@digi.com.br